quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Bíblia: Revelação de Deus

Por: Francisco Rubeaux, omi

Todos os livros reunidos na Bíblia nos narram experiências de vida, pelas quais pessoas humanas, iguais a nós, reconheceram a presença de Deus, descobriram um pouco do seu rosto, afinal chegaram a conhecer quem é Deus e como age em nosso favor. Para guardar memória dessa revelação deram um nome a Deus. Por isso, ao longo da Bíblia, encontramos tantos nomes dados a Deus, para dizer quem Ele é e quem Ele é para nós.

Vamos percorrer alguns livros da Bíblia para nós também contemplar esse rosto de Deus, e, quem sabe, acrescentar outros nomes, a partir das nossas próprias experiências.

1. Abraão, nosso pai na fé, descobre que Deus não é distante e terrível, mas ao contrário, quer fazer aliança com a humanidade: “eu farei de você um grande povo e o abençoarei, tornarei famoso o seu nome, de modo que se torne uma bênção. Abençoarei os que abençoarem você e amaldiçoarei aqueles que o amaldiçoarem. Em você, todas as famílias da terra serão abençoadas”. (Gênesis 12, 2-3). Deus é o Deus da aliança, um Deus que quer unir-se à vida e às andanças dos homens. Deus caminha com a gente. É PRÓXIMO.

2. Deus próximo, também o experimenta Moisés. Na sarça ardente, Deus se revela como aquele que desce: “Eu vi muito bem a miséria do meu povo que está no Egito. Ouvi seu clamor contra seus opressores, e conheço os seus sofrimentos. Por isso, desci para libertá-lo do poder dos egípcios, e para fazê-lo subir dessa terra para uma terra fértil e espaçosa, terra onde corre leite e mel”. (Êxodo 3, 7-8). Deus mesmo se dará o nome de JAVÉ, isto é, Deus presente, Deus atuante. “Esse é meu nome para sempre e assim eu serei lembrado de geração em geração”. (Êxodo 3, 15).

3. Deus vem para libertar, salvar o seu povo da opressão. Ele é REDENTOR: “Não tenha medo, vermizinho, Jacó, bichinho Israel. Eu mesmo o ajudarei, palavra do Senhor. O seu Redentor é o Santo de Israel”. (Isaías 41, 14).

4. O Redentor é o mesmo que o CRIADOR: “Assim diz Javé, o Santo de Israel, aquele que o formou. Eu fiz a terra e criei nela o homem. Minhas mãos estenderam os céus e dei ordens para todo o exército dos astros”. (Isaías 45, 11-12).

5. Deus cuida de nós como um PAI ou uma MÃE: “Quando Israel era menino, eu o amei. Do Egito chamei o meu filho. Fui eu que ensinei Efraim a andar, segurando-o pela mão. Eu os atraí com laços de bondade, com cordas de amor. Fazia com eles como quem levanta até seu rosto uma criança; para dar-lhes de comer, eu me abaixava até eles. O meu coração solta em meu peito, as minhas entranhas se comovem dentro de mim. Eu sou Deus, e não um homem. Eu sou o Santo no meio de você”.(Oséias 11, 1-4 e 9).

6. Deus é AMOR e FIDELIDADE: “Javé passou diante de Moisés, proclamando: Javé, Javé! Deus de compaixão e piedade, lento para a cólera e cheio de amor e fidelidade. Ele conserva o seu amor por milhares de gerações”. (Êxodo 34, 6-7). Para falar de Deus, muitas vezes os profetas usaram essas palavras “Deus de amor e fidelidade” No novo Testamento João escrevera “cheio de graça e verdade”.(João 1, 14).

7. Esse Deus de bondade e de misericórdia é o ÚNICO Deus: “Eu sou Javé, e fora de mim não existe salvador. Eu sou Deus e o sou para sempre. Não há quem possa livrar-se de minha mão”(Isaías 43, 11-13).

8. Deus FILHO nos revela o PAI: “Quem me viu, viu o Pai. Você não acredita que eu estou no Pai, e que o Pai está em mim? As palavras que eu digo a vocês, não as digo por mim mesmo, mas o Pai que permanece em mim, ele é que realiza as suas obras. Acreditem em mim: eu estou no Pai e o Pai está em mim”. (João 14, 9-11).

9. Deus é ESPÍRITO SANTO: “O Senhor é o Espírito; e onde se acha o Espírito do Senhor aí existe a liberdade”. (2ª Coríntios 3, 17).

10. Concluindo todo esse percurso histórico, João vai resumir quem é Deus numa palavra só: “Nós reconhecemos o amor que Deus tem por nós e acreditamos nesse amor. DEUS É AMOR; quem permanece no amor, permanece em Deus e Deus permanece nele”. (1ª João 4, 16).

Se nós vivermos o amor uns para com os outros, é a vida de Deus que está em nós, é Deus mesmo que permanece em nós, ele vive em nós, nos tornemos sua morada: “Se alguém em ama, guarda a minha palavra, e meu Pai o amará. Eu e meu Pai viremos e faremos nele a nossa morada”. (João 14, 23).

A fé é a certeza que temos que Deus nos ama, que por isso Ele está sempre conosco, ao nosso lado, dentro de nós, Ele é o “Deus conosco” e essa certeza nos leva a afirmar que a vida plena, a vida segundo Deus é estar junto com Ele: “Essa é a tenda de Deus com os homens. Ele vai morar com eles. Eles serão o seu Povo, e Ele, o Deus-com-eles, será o seu Deus. O vencedor receberá esta herança: eu serei o Deus dele, e ele será o meu filho”. (Apocalipse 21, 3 e 7).

“Escuta, Povo de Deus, Javé nosso Deus é o único Javé. Portanto ame a Javé seu Deus com todo o seu coração, com toda a sua alma e com toda a sua força” (Deuteronômio 6, 4-5).

“Bendiga a Javé, ó minha alma, e não esqueça nenhum dos seus benefícios.
Ele perdoa suas culpas todas, e cura todos os seus males.
Ele redime da cova a sua vida, e a coroa de amor e compaixão.
Ele sacia seus anos de bens. Javé faz justiça e defende todos os oprimidos.
Javé é compaixão e piedade, lento para a cólera e cheio de amor.
Como um pai é compassivo com seus filhos,
Javé é compassivo com aqueles que o temem.
Porque ele conhece a nossa estrutura, ele se lembra do pó que somos nós.

(Salmo 103)

sábado, 31 de julho de 2010

Carta Compromisso do 8º Encontro de Consagradas e Consagrados a Serviço das CEBs

“Gente simples fazendo coisas pequenas em lugares pouco importantes consegue mudanças extraordinárias!”

Nós, consagrados e consagradas, leigas e leigos, padres e seminaristas, atuantes nas Comunidades Eclesiais de Base, reunidos de 27 a 29 de julho, na cidade de São Paulo, especificamente na Favela de Vila Prudente, animados pela fé, iluminados pelo tema CEBs: Profecia e Missão Urbana, abrimos nossos corações para refletir e aprofundar nossa atuação profética e missionária no meio de nosso povo. No desejo de servir, engajando-nos na dimensão de uma pastoral transformadora, observamos o apelo histórico de Deus a que o Evangelho de Cristo permaneça sinal e anúncio no meio dos pobres e excluídos.

Nosso encontro, em meio dos irmãos e irmãs favelados, envolveu-nos da mística cristã do amor pelos pequenos e fracos. Num mosaico de realidades humanas desafiadoras, onde o serviço se dá por meio de tantos sinais e dons particulares postos em favor do bem e da paz, observamos a riqueza da diversidade. Constatamos, assim, o jeito de Deus passar na Igreja e na América Latina e, assim sendo, nossa Igreja é convidada a redescobrir o dinamismo transformador da tenda, isto é, do modo como o Deus itinerante do Êxodo vai ao encontro das pessoas, não permanecendo imóvel, esperando por elas. Em meio ao povo, vivendo seu cotidiano, reforçamos a convicção de que quanto mais se fecham as estruturas, mais necessário se torna que caminhemos.

Juntamos o saber teórico e prático neste encontro, recusando-nos a dormir como o profeta Jonas, que permaneceu acomodado ao estabelecido, procurando ser alheio à realidade. No desejo de viver pelas atitudes o que pronunciamos por palavras, além dos momentos de aprofundamento em relação a esta realidade, fomos conduzidos a nos defrontar com ela por meio de visitas às famílias, às organizações populares e ainda celebramos a vida com as cinco comunidades presentes na Favela.

Por intermédio da assessoria do Padre Tarcisio Marques Mesquita, coordenador de pastoral da Região Episcopal Belém, fomos envolvidos num clima de reflexão sobre nossa atuação, recordando-nos que o Cristo Senhor atuava numa linha de sempre revitalizar o ser humano, dignificando-o, incluindo-o, a fim de que se tornasse protagonista de sua libertação. Aprofundamos que a nossa vida é um constante renovar, um partir contínuo que exige despojamento e disposição para nos rever e melhor servir. Observamos que o formalismo religioso, o apego à frieza de leis e normas leva-nos ao empobrecimento de nossa capacidade de pensar e agir; por isso, devemos aprender da prática de Jesus que sempre colocou o ser humano acima de qualquer lei, privilegiando em tudo a vida.

Destacamos, de modo particular, a presença de Dona Lili, uma das primeiras lideranças da Favela de Vila prudente; com sua simplicidade e sabedoria, incitou nosso espírito a se revigorar na linha do serviço generoso e gratuito, parte integrante do testemunho cristão.

Fundamentados e revigorados pelo aprofundamento destes dias, comprometemo-nos a estar atentos aos desafios que aqui constatamos, bem como no avanço da atuação em vista de responder a tais desafios, a saber: constituir e estimular novas lideranças, ir ao encontro dos jovens, lutar contra a violência familiar em especial contra a mulher, contra o narcotráfico, acentuar e estimular a presença da mulher na Igreja, fortalecer a leitura bíblica em consonância com a realidade, marcada pela globalização, neo-liberalismo e individualismo.

Nossas perspectivas não podem ser jamais menores que nossos próprios desafios. Por isso, propomo-nos a ir ao encontro das famílias, aprofundar a espiritualidade da simplicidade de vida, mantendo-nos em comunhão de corações, ideais e serviço, propiciando em tudo o protagonismo do Povo de Deus.

Gratos a tanta gente que nos auxiliou na realização deste encontro, sobretudo aos irmãos e irmãs da Favela de Vila Prudente, invocamos a luz e a força do Espírito Santo para que nos acompanhe no decorrer de nossas vidas a fim de que nossos bons propósitos, aqui expressos, se transformem em gestos concretos a serviço de um mundo justo e mais humano.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

OLHAR a NATUREZA, as PESSOAS, a REALIDADE: DEUS está PRESENTE NELAS.

Por: Francisco Rubeaux, omi

“ Senhor que os nossos olhos se abram!” (Mateus 20, 33)

“Só se vê bem com o coração” (Pequeno Príncipe).

“O que os olhos não vêm, o coração não sente".

É uma reflexão profundamente bíblica. De fato na Bíblia, se associa ao coração os olhos. Eles refletem as intenções profundas do coração.

Poderíamos fazer toda uma pesquisa bíblica sobre os olhos e sobre o olhar. Órgão da visão, o olho reflete a vida interior da pessoa. Do olhar, da maneira de olhar, vai depender a atitude como escreve Lucas em 10, 31-33. Nosso olhar vai dirigir os nossos passos, vai comandar a nossa conduta (Lucas 11, 34-36).

1. OLHAR a NATUREZA:

“Quando vejo o céu, obra dos teus dedos, a lua e as estrelas que fixaste, que é um mortal, para dele te lembrares” (Salmo 8, 4).

“Os céus cantam a glória de Deus, e o firmamento proclama a obra das suas mãos” (Salmo 19, 2)

A Criação, como diz Santo Agostinho, é a primeira palavra que Deus pronuncia para se comunicar conosco. Infelizmente não soubemos olhar e entender. Por isso Paulo escreverá aos Romanos: “Porque o que se pode conhecer de Deus é manifesto entre eles (as pessoas humanas), pois Deus lho revelou. Sua realidade invisível, seu eterno poder e sua divindade tornaram-se inteligíveis, desde a criação do mundo através das criaturas” (Romanos 1, 19-20).

Olhar, admirar a Natureza como Palavra de Deus, é entrar em sintonia com Deus. Desrespeitar a Natureza é blasfemar contra a palavra de Deus. Contemplar a obra do Criador é amar o Criador. Jesus pedia para olhar a Natureza e a partir de lá considerar a nossa vida (Lucas 12, 24 e 27).

“Deus viu tudo o que tinha feito: e era muito bom” (Gênesis 1, 31).

2. Olhar as pessoas.

Há um olhar muito profundo que existe de toda eternidade: o olhar mútuo do Pai e do Filho. São João no seu prólogo (João 1, 1-18) nos diz que a Palavra, o Filho unigênito, é o único a poder nos falar do Pai, pois ele está sempre voltado para o seio do Pai: Eles estão num permanente face a face, tão intenso de amor que os dois são unidos pelo Amor, o Divino Espírito Santo.

É com este mesmo olhar de amor que Deus olha a sua obra, a Criação e com um carinho especial as pessoas humanas que ele criou à sua imagem e semelhança. Ele continua a chamar para a vida como lembra o Profeta Ezequiel ao povo exilado na Babilônia: “Ao passar junto de ti, eu te vi a estrebuchar no teu próprio sangue. Vendo-te envolta em teu sangue, eu te disse: “Vive! ” (Ezequiel 16, 6).

O Salmista tem a convicção que Deus olha os humanos: “Do céu o Senhor olha todos os filhos de Adão” (Salmo 33, 13); “Quem é como o Senhor nosso Deus? Ele se eleva para sentar-se e se abaixa para olhar pelo céu e pela terra” (Salmo 113, 5-6). “Porque seus olhos acompanham o proceder de cada um e vigiam todos os seus passos” (Jô 34, 21). Assim o Senhor desceu para ver a obra dos homens: “O Senhor desceu para ver a cidade e a torre que os homens tinham construído” (Gênesis 11, 5).

O olhar de Deus é puro: “Teus olhos são puros demais para ver o mal, Tu não podes contemplar a opressão” (Habacuc 1, 13). Por isso Deus não olha as aparências e sim o coração: “Deus vê não como o homem vê, porque o homem toma em consideração a aparência, mas o Senhor olha o coração” (1º Samuel 16, 7). Este olhar puro (transparente) de Deus lhe permite de enxergar o sofrimento e a aflição: “Eu vi, eu vi a miséria do meu povo.” (Êxodo 3, 7). É bom notar a insistência do texto: eu vi, eu vi... Ele verá também a opressão do seu povo na terra de Canaã: “Porque vi a miséria do meu povo e o seu clamor chegou até mim” (1º de Samuel 9, 16).

O olhar de Deus revela o íntimo do seu coração, seu olhar é sustentado pelo amor que tem no coração. Por isso Deus olha a cada um tal como ele é, e o ama tal como ele é.

Jesus, o Filho unigênito do pai, encarnado, terá o mesmo olhar de Deus. Ele vê e se compadece diante do enterro do filho da viúva de Naim (Lucas 7, 13). Como ele ficará comovido diante das multidões sem pastor (Marcos 6, 36). A compaixão nasce do ver: “Certo samaritano, em viagem, chegou junto dele viu-o e moveu-se de compaixão. Aproximou-se dele...” (Lucas 10, 33-34). Somente os puros de coração poderão ver no outro a presença de Deus: “Bem aventurados os puros de coração porque verão a Deus” (Mateus 5, 8).

Jesus terá sempre um olhar questionador, ou para chamar à atenção ou para manifestar a misericórdia (Lucas 7, 44; 22, 60-61; Marcos 10, 21; 3, 5).

Mas Jesus veio para devolver a vista aos cegos. Essa atividade era esperada como sinal dos tempos messiânicos (Isaías 35, 1-10), de lá a resposta aos enviados do Batista que queria saber se Jesus era bem o Messias esperado (Mateus 11, 4-5). Jesus foi ungido pelo Espírito Santo para “dar a recuperação da vista aos cegos” (Lucas 4, 18). Mas percebemos nos textos evangélicos que se trata mais de que uma recuperação física da vista é uma recuperação do coração que volta a enxergar a realidade e as pessoas como de fato são. É, diríamos hoje, uma conscientização. Havia, anos atrás, um ditado que dizia; “Quem não sabe é como quem não vê”. O perigo da ação de Jesus não está no fato dele devolver a vista aos cegos, mas no fato que ele, abrindo os olhos, abre também a visão para a realidade tal como ele é. Característico nisto é a cura do cego de nascença segundo o evangelista João. A cura do cego lhe permite de reconhecer em Jesus o Messias: “Crês no Filho do Homem? Quem é Senhor para eu nele creia? Tu o estás vendo, é quem fala contigo. Exclamou ele: Creio Senhor!” (João 9, 35-38) Assim foi o fim da sua cegueira. Mas tem pessoas que não querem ver e são os verdadeiros cegos: “Os fariseus perguntaram a Jesus: por acaso nós também somos cegos? Jesus respondeu: se fôsseis cegos não teríeis pecado, mas dizeis “nós vemos”, então vosso pecado permanece” (João 9, 40-41).

No Evangelho de João, o importante é o VER, mas um ver que não é físico e sim espiritual, esse ver tem o poder de conduzir a fé, ao CRER (João 2, 11 e 20, 29-31). É um ver que vem do interior da pessoa, são como raios que penetram e transmitem o bem estar aos outros. O cristão vê diferentemente dos que não tem fé, ele vê com os olhos de Deus. Pelo Batismo somos filhos e filhas de Deus. Durante muito tempo o Batismo foi chamado pelos cristãos de iluminação (Hebreus 10, 32). Assim é narrado no livro dos Atos dos Apóstolos o Batismo de Saulo de Tarso em Damasco (Atos 9, 17-19a). Exemplar também é a cura do cego de Jericó, Bartimeu. Ele quer ver. Quando ele alcança a graça de enxergar, ele pula e segue Jesus pelo caminho (Marcos 10 46-52). O fato de ver lhe permite de fazer a sua opção e de seguir Jesus. Nós somos filhos e filhas da luz, pessoas que enxergam e seguem o caminho de Deus (Efésios 5, 8-14).

3. Olhar a realidade.

O cristão, a cristã, por causa da luz interior que os dirige, vai olhar e apreciar os acontecimentos de modo diferente das outras pessoas que não compartilham da mesma fé. O olhar deles permite de olhar o que tem por trás da realidade. No antigo Israel, os Profetas eram chamados de “videntes” (1º Samuel 9, 9). São pessoas capazes de ver além da realidade presente, ou melhor, a partir dessa realidade. Não são adivinhões e sim analistas de conjuntura. Por isso eles vêem a realidade de opressão e exploração do tempo dos Reis e eles a denunciam: “Em Betel vi uma coisa horrível, ali se prostitui Efraim, contamina-se Israel” (Oséias 6, 10). Assim o profeta vê a realidade do seu país com o olhar de Deus; abandonaram a Aliança com o Senhor Javé para seguir Baal.

Da mesma forma Jesus observa e vê o que é certo: “Levantando os olhos, Jesus viu os ricos lançando ofertas no Tesouro do Templo” (Lucas 21, 1). O que pode parecer um gesto de partilhar é na realidade uma aparência; eles dão do que sobra, diferente da viúva que vai dar do seu necessário. João Batista já desmascarava a hipocrisia dos que venham receber o batismo de arrependimento sem contrição nenhuma no coração (Mateus 3, 7). Quando Jesus vê muita gente segui-lo, ele sabe o que está no coração das pessoas (João 2, 24-25). Jesus convida a olhar bem de frente a realidade: “Então Jesus disse a Simão: Vês esta mulher?” (Lucas 44). Podemos pensar que como todo bom fariseu Simão nem sequer olhava para uma mulher pecadora com mede de se tornar impuro! Jesus obriga a olhar a realidade sofrida da vida de muitas pessoas.

Os discípulos terão este olhar de misericórdia diante da situação dura de tantas pessoas. Pedro e João vão pedir ao mendigo olhar para eles: “Vendo Pedro e João entrarem no Templo, o homem pediu-lhes esmola. Pedro o encarou como também João, e disse: Olha para nós. E fitou-os, esperando receber deles alguma coisa” (Atos 3, 3-5). Quantas vezes nós desviamos o nosso olhar para não suportar cenas de sofrimento, de dor, de privação. Por isso ao terminar este pequeno percurso bíblico façamos nossa a oração de São Paulo na sua carta aos Efésios: “Que o Deus e Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo ilumine os olhos do vosso coração” (Efésios 1, 18).

quinta-feira, 24 de junho de 2010

MISSÃO É VISITAR.

Por: Pe. Francisco Rubeaux, omi.

“Bendito seja o Senhor, Deus de Israel, porque visitou e redimiu o seu povo” (Lucas 1, 68).

O povo de Deus do Antigo Testamento sempre teve consciência que o seu Deus era um Deus próximo (Emanuel=Deus no meio de nós), um Deus que visitava o seu povo.

No Novo Testamento, os discípulos e as discípulas de Jesus tem essa mesma convicção: em Jesus de Nazaré, Deus visitou o seu povo.

Zacarias louva o Senhor por visitar o seu povo, pois sabe que com o nascimento do seu filho João se aproxima a vinda do Messias, o enviado de Deus (Lucas 1, 68 a79).

Depois da ressurreição do filho da viúva de Naim, o povo todo exclama: “Um grande profeta surgiu entre nós e Deus visitou o seu povo”(Lucas 7, 16).

Ao enviar os Apóstolos e os discípulos anunciar a Boa Nova, Jesus pede para que vão visitar aldeias e povoados e entrem nas casas: “Ele os enviou dois a dois à sua frente a toda cidade e lugar aonde Ele próprio devia ir. Em qualquer casa em que entrarem...”(Lucas 10, 1 e 4).

Jesus visitou o povo, e Ele ia de lugar em lugar, entrava nas casas (de Simão Pedro, de Marta e Maria, de Simão o fariseu, de Zaqueu...

Depois de sua Ressurreição Jesus enviou os seus discípulos para a missão, e eles também começaram a andar de lugar em lugar anunciando a Boa Nova. Eles fizeram das suas casas o lugar da reunião, do encontro, assim no livro dos Atos dos Apóstolos podemos constatar que a casa é também a comunidade: “partiam o pão pelas casas, tomando o alimento com alegria e simplicidade de coração”(Atos 2, 4).

Mas o que se passa nestas visitas de Jesus, dos discípulos, às casas encontradas pelo caminho? Quem vem visitar é de paz: “Ao entrarem na casa saúdem-a (Shalom-Paz!) e se for digna desça a sua paz sobre ele”(Mateus 10, 11). O missionário é pessoa que traz a paz, porque ele traz uma Boa Nova (Evangelho).

É Boa Nova da VIDA, da ressurreição, como na casa de Simão Pedro com a sogra dele que se encontrava acamada com alta febre (Marcos 1, 29 a 31). Jesus toma pela mão, nada de distante, de discriminação porque é uma mulher e ainda doente. Ele a levanta (faz ressurgir), sua visita é para ela momento de retorno à vida, um reerguimento. Ela então os servia, isso é, ela entra na comunidade, ela assume o seu lugar, seu serviço (ministério), sua missão junto com os outros. É sempre agir de maneira positiva e não condenar, é sempre para mostrar que nada está perdido porque o nosso Deus é o Deus da vida.

É Boa Nova da INCLUSÃO, se Jesus está junto às pessoas desta casa é que elas são dignas da sua visita, Ele não rejeita ninguém. Assim entrou na casa de Marta que o convidou para uma refeição. São duas mulheres, ele poderia ter evitado de entrar nessa casa, devido as regras de convivência daquela época (lembremo-nos também da Samaritana) Lá Ele anuncia a Boa Nova de que todos são iguais e que mulher também pode ser discípula: “Maria escolheu a melhor parte não lhe será tirada) (Lucas 10, 38 a 41). Boa Nova é buscar “as ovelhas perdidas da casa de Israel”. Reintegrar para o seio da comunidade.

É Boa Nova da SALVAÇÃO: “hoje a salvação entrou nessa casa” (Lucas 19, 9). É o que aconteceu com Zaqueu, o cobrador de impostos. Ele estava desejando ver Jesus, Jesus foi além do seu desejo, pois quis se hospedar na casa dele. Essa visita transformou a vida de Zaqueu.

Mas nem sempre a visita é bem quista, nem sempre o missionário é bem acolhido, pode até ser rejeitado: “E se algum lugar não lhes receber nem lhes quiser ouvir, ao partirem de lá, sacudam o pó debaixo dos seus pés em testemunho contra eles” (Marcos 6, 11). Pois acontece que pessoas não sabem reconhecer o dia em que são visitadas, como Jerusalém: “Não reconheceste o tempo em que foste visitada” (Lucas 9, 44).

Como Jesus agiu, assim agiram os discípulos. Visitaram as cidades e povoados do seu tempo, anunciando sempre uma Boa Nova (Evangelho) nunca umas palavras de condenação, pois não é para isso que somos enviados: “Deus amou tanto o mundo que enviou o se Filho ao mundo, para que por Ele o mundo seja salvo” (João 3, 16).

Missão é sair dos muros da igreja, é ir ao encontro dos outros: deus veio ao nosso encontro, Jesus foi ao encontro de tanta gente, os discípulos e as discípulas deixaram os seus lugares para percorrer o mundo conhecido daquela época (no livro dos Atos dos Apóstolos, Lucas nos conta até quatro viagens missionárias de Paulo junto com os seus colaboradores).

Não esqueçamos que quem dirige a missão é o Espírito Santo. Temos que deixar espaço para Ele em nossas vidas e em nossos planejamentos. Temos, sobretudo que estar bem atentos ao que ele diz ainda hoje à nossa Igreja (Apocalipse 2, 7). Ele nos dará de ter as atitudes de paz e de amizade que fazem entrar na relação certa com as outras pessoas, Ele nos dará de falar o necessário em cada circunstância e situação que encontraremos. Ele nos dará a coragem e a energia que nos fará enfrentar as dificuldades que com certeza encontraremos pelo caminho da missão.

“Deixem-se conduzir pelo Espírito Santo” (Gálatas 5, 16).

terça-feira, 15 de junho de 2010

25ª Semana do Migrante

De 13 a 20 de junho de 2.010:

Por uma economia a serviço da vida

O que é ser migrante? Migrar é ir de um ligar para outro. Têm aves migrantes. Estas aves vão de uma região para outra, de um pais para outro em busca de um melhor clima. Têm também pessoas migrantes.
Há pessoas que se mudam de lugar porque querem. Mas muitas mudam de lugar porque são obrigadas.
Mudar de lugar por questão de emprego: em busca de emprego ou porque a firma pela qual trabalha exige que vá trabalhar numa outra fábrica da companhia. Têm ainda os trabalhadores dos portos e aeroportos, ferrovias e estradas; os marítimos e pescadores... os trabalhadores da cana, nordestinos
Mudar de lugar por questão de saúde: o clima onde mora não convém
Mudar de lugar por questão política: refugiados por causa da guerra, exilados políticos, reforma agrária mal feita que expulsa o agricultor de sua terra
Mudar de lugar por causa de catástrofes: terremotos, enchentes, deslizamentos de terra, vulcões... a seca do nordeste.

A Palavra de Deus ilumina estas situações:
A Bíblia é a memória de um povo em êxodo.
Abraão foi um migrante, “um arameu errante (Deuteronômio 26, ) Andou de Ur da Caldéia para Haram, de lá para Canaã e depois desceu ao Egito de onde voltou para Canaã.
A fuga da escravidão, na terra do Egito e a longa caminhada pelo deserto em busca da terra prometida.
O Exílio na Babilônia e a volta depois de 50 anos.
Jesus pelas estradas da Palestina, anunciando a Boa Nova.
Paulo e as suas viagens missionárias
A 1ª carta de São Pedro lembra aos cristãos que eles são estrangeiros e forasteiros aqui na terra, sua Pátria verdadeira são os Céus.
A Palavra de Deus conta a história de um povo em marcha, na terra provisória, em direção à Pátria definitiva.
Temos também alguns documentos que recomendam particular atenção aos migrantes.
“O gênero humano encontra-se hoje em uma fase nova de sua história, na qual mudanças profundas e rápidas estendem-se progressivamente ao universo inteiro” (G. et S. 04). “As migrações hodiernas constituem o maior movimento de pessoas de todos os tempos. Tal fenômeno, que envolve cerca de 200 milhões de seres humanos, transformou-se em realidade estrutural da sociedade contemporânea”
“Um dos fenômenos mais importantes em nossos países é a mobilidade humana, em sua dupla expressão de migração e de itinerância, em que milhões de pessoas migram ou se vêem forçadas a migrar dentro e fora dos seus respectivos países” (Documento de Apare4cida 73).