domingo, 8 de agosto de 2010
sábado, 31 de julho de 2010
Carta Compromisso do 8º Encontro de Consagradas e Consagrados a Serviço das CEBs
“Gente simples fazendo coisas pequenas em lugares pouco importantes consegue mudanças extraordinárias!”
Nós, consagrados e consag
radas, leigas e leigos, padres e seminaristas, atuantes nas Comunidades Eclesiais de Base, reunidos de
Nosso encontro, em meio dos irmãos e irmãs favelados, envolveu-nos da mística cristã do amor pelos pequenos e fracos. Num mosaico de realidades humanas desafiadoras, onde o serviço se dá por meio de tantos sinais e dons particulares postos em favor do bem e da paz, observamos a riqueza da diversidade. Constatamos, assim, o jeito de Deus passar na Igreja e na América Latina e, assim sendo, nossa Igreja é convidada a redescobrir o dinamismo transformador da tenda, isto é, do modo como o Deus itinerante do Êxodo vai ao encontro das pessoas, não permanecendo imóvel, esperando por elas. Em meio ao povo, vivendo seu cotidiano, reforçamos a convicção de que quanto mais se fecham as estruturas, mais necessário se torna que caminhemos.
Juntamos o saber teórico e prático neste encontro, recusando-nos a dormir como o profeta Jonas, que permaneceu acomodado ao estabelecido, procurando ser alheio à realidade. No desejo de viver pelas atitudes o que pronunciamos por palavras, além dos momentos de aprofundamento em relação a esta realidade, fomos conduzidos a nos defrontar com ela por meio de visitas às famílias, às organizações populares e ainda celebramos a vida com as cinco comunidades presentes na Favela.
Por intermédio da assessoria do Padre Tarcisio Marques Mesquita, coordenador de pastoral da Região Episcopal Belém, fomos envolvidos num clima de reflexão sobre nossa atuação, recordando-nos que o Cristo Senhor atuava numa linha de sempre revitalizar o ser humano, dignificando-o, incluindo-o, a fim de que se tornasse protagonista de sua libertação. Aprofundamos que a nossa vida é um constante renovar, um partir contínuo que exige despojamento e disposição para nos rever e melhor servir. Observamos que o formalismo religioso, o apego à frieza de leis e normas leva-nos ao empobrecimento de nossa capacidade de pensar e agir; por isso, devemos aprender da prática de Jesus que sempre colocou o ser humano acima de qualquer lei, privilegiando em tudo a vida.
Destacamos, de modo particular, a presença de Dona Lili, uma das primeiras lideranças da Favela de Vila prudente; com sua simplicidade e sabedoria, incitou nosso espírito a se revigorar na linha do serviço generoso e gratuito, parte integrante do testemunho cristão.
Fundamentados e revigorados pelo aprofundamento destes dias, comprometemo-nos a estar atentos aos desafios que aqui constatamos, bem como no avanço da atuação em vista de responder a tais desafios, a saber: constituir e estimular novas lideranças, ir ao encontro dos jovens, lutar contra a violência familiar em especial contra a mulher, contra o narcotráfico, acentuar e estimular a presença da mulher na Igreja, fortalecer a leitura bíblica em consonância com a realidade, marcada pela globalização, neo-liberalismo e individualismo.
Nossas perspectivas não podem ser jamais menores que nossos próprios desafios. Por isso, propomo-nos a ir ao encontro das famílias, aprofundar a espiritualidade da simplicidade de vida, mantendo-nos em comunhão de corações, ideais e serviço, propiciando em tudo o protagonismo do Povo de Deus.
Gratos a tanta gente que nos auxiliou na realização deste encontro, sobretudo aos irmãos e irmãs da Favela de Vila Prudente, invocamos a luz e a força do Espírito Santo para que nos acompanhe no decorrer de nossas vidas a fim de que nossos bons propósitos, aqui expressos, se transformem em gestos concretos a serviço de um mundo justo e mais humano.
quarta-feira, 21 de julho de 2010
OLHAR a NATUREZA, as PESSOAS, a REALIDADE: DEUS está PRESENTE NELAS.
Por: Francisco Rubeaux, omi
“ Senhor que os nossos olhos se abram!” (Mateus 20, 33)
“Só se vê bem com o coração” (Pequeno Príncipe).
“O que os olhos não vêm, o coração não sente".
É uma reflexão profundamente bíblica. De fato na Bíblia, se associa ao coração os olhos. Eles refletem as intenções profundas do coração.
Poderíamos fazer toda uma pesquisa bíblica sobre os olhos e sobre o olhar. Órgão da visão, o olho reflete a vida interior da pessoa. Do olhar, da maneira de olhar, vai depender a atitude como escreve Lucas em 10, 31-33. Nosso olhar vai dirigir os nossos passos, vai comandar a nossa conduta (Lucas 11, 34-36).
1. OLHAR a NATUREZA:
“Quando vejo o céu, obra dos teus dedos, a lua e as estrelas que fixaste, que é um mortal, para dele te lembrares” (Salmo 8, 4).
“Os céus cantam a glória de Deus, e o firmamento proclama a obra das suas mãos” (Salmo 19, 2)
A Criação, como diz Santo Agostinho, é a primeira palavra que Deus pronuncia para se comunicar conosco. Infelizmente não soubemos olhar e entender. Por isso Paulo escreverá aos Romanos: “Porque o que se pode conhecer de Deus é manifesto entre eles (as pessoas humanas), pois Deus lho revelou. Sua realidade invisível, seu eterno poder e sua divindade tornaram-se inteligíveis, desde a criação do mundo através das criaturas” (Romanos 1, 19-20).
Olhar, admirar a Natureza como Palavra de Deus, é entrar em sintonia com Deus. Desrespeitar a Natureza é blasfemar contra a palavra de Deus. Contemplar a obra do Criador é amar o Criador. Jesus pedia para olhar a Natureza e a partir de lá considerar a nossa vida (Lucas 12, 24 e 27).
“Deus viu tudo o que tinha feito: e era muito bom” (Gênesis 1, 31).
2. Olhar as pessoas.
Há um olhar muito profundo que existe de toda eternidade: o olhar mútuo do Pai e do Filho. São João no seu prólogo (João 1, 1-18) nos diz que a Palavra, o Filho unigênito, é o único a poder nos falar do Pai, pois ele está sempre voltado para o seio do Pai: Eles estão num permanente face a face, tão intenso de amor que os dois são unidos pelo Amor, o Divino Espírito Santo.
É com este mesmo olhar de amor que Deus olha a sua obra, a Criação e com um carinho especial as pessoas humanas que ele criou à sua imagem e semelhança. Ele continua a chamar para a vida como lembra o Profeta Ezequiel ao povo exilado na Babilônia: “Ao passar junto de ti, eu te vi a estrebuchar no teu próprio sangue. Vendo-te envolta em teu sangue, eu te disse: “Vive! ” (Ezequiel 16, 6).
O Salmista tem a convicção que Deus olha os humanos: “Do céu o Senhor olha todos os filhos de Adão” (Salmo 33, 13); “Quem é como o Senhor nosso Deus? Ele se eleva para sentar-se e se abaixa para olhar pelo céu e pela terra” (Salmo 113, 5-6). “Porque seus olhos acompanham o proceder de cada um e vigiam todos os seus passos” (Jô 34, 21). Assim o Senhor desceu para ver a obra dos homens: “O Senhor desceu para ver a cidade e a torre que os homens tinham construído” (Gênesis 11, 5).
O olhar de Deus é puro: “Teus olhos são puros demais para ver o mal, Tu não podes contemplar a opressão” (Habacuc 1, 13). Por isso Deus não olha as aparências e sim o coração: “Deus vê não como o homem vê, porque o homem toma em consideração a aparência, mas o Senhor olha o coração” (1º Samuel 16, 7). Este olhar puro (transparente) de Deus lhe permite de enxergar o sofrimento e a aflição: “Eu vi, eu vi a miséria do meu povo.” (Êxodo 3, 7). É bom notar a insistência do texto: eu vi, eu vi... Ele verá também a opressão do seu povo na terra de Canaã: “Porque vi a miséria do meu povo e o seu clamor chegou até mim” (1º de Samuel 9, 16).
O olhar de Deus revela o íntimo do seu coração, seu olhar é sustentado pelo amor que tem no coração. Por isso Deus olha a cada um tal como ele é, e o ama tal como ele é.
Jesus, o Filho unigênito do pai, encarnado, terá o mesmo olhar de Deus. Ele vê e se compadece diante do enterro do filho da viúva de Naim (Lucas 7, 13). Como ele ficará comovido diante das multidões sem pastor (Marcos 6, 36). A compaixão nasce do ver: “Certo samaritano, em viagem, chegou junto dele viu-o e moveu-se de compaixão. Aproximou-se dele...” (Lucas 10, 33-34). Somente os puros de coração poderão ver no outro a presença de Deus: “Bem aventurados os puros de coração porque verão a Deus” (Mateus 5, 8).
Jesus terá sempre um olhar questionador, ou para chamar à atenção ou para manifestar a misericórdia (Lucas 7, 44; 22, 60-61; Marcos 10, 21; 3, 5).
Mas Jesus veio para devolver a vista aos cegos. Essa atividade era esperada como sinal dos tempos messiânicos (Isaías 35, 1-10), de lá a resposta aos enviados do Batista que queria saber se Jesus era bem o Messias esperado (Mateus 11, 4-5). Jesus foi ungido pelo Espírito Santo para “dar a recuperação da vista aos cegos” (Lucas 4, 18). Mas percebemos nos textos evangélicos que se trata mais de que uma recuperação física da vista é uma recuperação do coração que volta a enxergar a realidade e as pessoas como de fato são. É, diríamos hoje, uma conscientização. Havia, anos atrás, um ditado que dizia; “Quem não sabe é como quem não vê”. O perigo da ação de Jesus não está no fato dele devolver a vista aos cegos, mas no fato que ele, abrindo os olhos, abre também a visão para a realidade tal como ele é. Característico nisto é a cura do cego de nascença segundo o evangelista João. A cura do cego lhe permite de reconhecer em Jesus o Messias: “Crês no Filho do Homem? Quem é Senhor para eu nele creia? Tu o estás vendo, é quem fala contigo. Exclamou ele: Creio Senhor!” (João 9, 35-38) Assim foi o fim da sua cegueira. Mas tem pessoas que não querem ver e são os verdadeiros cegos: “Os fariseus perguntaram a Jesus: por acaso nós também somos cegos? Jesus respondeu: se fôsseis cegos não teríeis pecado, mas dizeis “nós vemos”, então vosso pecado permanece” (João 9, 40-41).
No Evangelho de João, o importante é o VER, mas um ver que não é físico e sim espiritual, esse ver tem o poder de conduzir a fé, ao CRER (João 2, 11 e 20, 29-31). É um ver que vem do interior da pessoa, são como raios que penetram e transmitem o bem estar aos outros. O cristão vê diferentemente dos que não tem fé, ele vê com os olhos de Deus. Pelo Batismo somos filhos e filhas de Deus. Durante muito tempo o Batismo foi chamado pelos cristãos de iluminação (Hebreus 10, 32). Assim é narrado no livro dos Atos dos Apóstolos o Batismo de Saulo de Tarso em Damasco (Atos 9, 17-19a). Exemplar também é a cura do cego de Jericó, Bartimeu. Ele quer ver. Quando ele alcança a graça de enxergar, ele pula e segue Jesus pelo caminho (Marcos 10 46-52). O fato de ver lhe permite de fazer a sua opção e de seguir Jesus. Nós somos filhos e filhas da luz, pessoas que enxergam e seguem o caminho de Deus (Efésios 5, 8-14).
3. Olhar a realidade.
O cristão, a cristã, por causa da luz interior que os dirige, vai olhar e apreciar os acontecimentos de modo diferente das outras pessoas que não compartilham da mesma fé. O olhar deles permite de olhar o que tem por trás da realidade. No antigo Israel, os Profetas eram chamados de “videntes” (1º Samuel 9, 9). São pessoas capazes de ver além da realidade presente, ou melhor, a partir dessa realidade. Não são adivinhões e sim analistas de conjuntura. Por isso eles vêem a realidade de opressão e exploração do tempo dos Reis e eles a denunciam: “Em Betel vi uma coisa horrível, ali se prostitui Efraim, contamina-se Israel” (Oséias 6, 10). Assim o profeta vê a realidade do seu país com o olhar de Deus; abandonaram a Aliança com o Senhor Javé para seguir Baal.
Da mesma forma Jesus observa e vê o que é certo: “Levantando os olhos, Jesus viu os ricos lançando ofertas no Tesouro do Templo” (Lucas 21, 1). O que pode parecer um gesto de partilhar é na realidade uma aparência; eles dão do que sobra, diferente da viúva que vai dar do seu necessário. João Batista já desmascarava a hipocrisia dos que venham receber o batismo de arrependimento sem contrição nenhuma no coração (Mateus 3, 7). Quando Jesus vê muita gente segui-lo, ele sabe o que está no coração das pessoas (João 2, 24-25). Jesus convida a olhar bem de frente a realidade: “Então Jesus disse a Simão: Vês esta mulher?” (Lucas 44). Podemos pensar que como todo bom fariseu Simão nem sequer olhava para uma mulher pecadora com mede de se tornar impuro! Jesus obriga a olhar a realidade sofrida da vida de muitas pessoas.
Os discípulos terão este olhar de misericórdia diante da situação dura de tantas pessoas. Pedro e João vão pedir ao mendigo olhar para eles: “Vendo Pedro e João entrarem no Templo, o homem pediu-lhes esmola. Pedro o encarou como também João, e disse: Olha para nós. E fitou-os, esperando receber deles alguma coisa” (Atos 3, 3-5). Quantas vezes nós desviamos o nosso olhar para não suportar cenas de sofrimento, de dor, de privação. Por isso ao terminar este pequeno percurso bíblico façamos nossa a oração de São Paulo na sua carta aos Efésios: “Que o Deus e Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo ilumine os olhos do vosso coração” (Efésios 1, 18).
quarta-feira, 30 de junho de 2010
quinta-feira, 24 de junho de 2010
MISSÃO É VISITAR.
Por: Pe. Francisco Rubeaux, omi.
“Bendito seja o Senhor, Deus de Israel, porque visitou e redimiu o seu povo” (Lucas 1, 68).
O povo de Deus do Antigo Testamento sempre teve consciência que o seu Deus era um Deus próximo (Emanuel=Deus no meio de nós), um Deus que visitava o seu povo.
No Novo Testamento, os discípulos e as discípulas de Jesus tem essa mesma convicção: em Jesus de Nazaré, Deus visitou o seu povo.
Zacarias louva o Senhor por visitar o seu povo, pois sabe que com o nascimento do seu filho João se aproxima a vinda do Messias, o enviado de Deus (Lucas 1, 68 a79).
Depois da ressurreição do filho da viúva de Naim, o povo todo exclama: “Um grande profeta surgiu entre nós e Deus visitou o seu povo”(Lucas 7, 16).
Ao enviar os Apóstolos e os discípulos anunciar a Boa Nova, Jesus pede para que vão visitar aldeias e povoados e entrem nas casas: “Ele os enviou dois a dois à sua frente a toda cidade e lugar aonde Ele próprio devia ir. Em qualquer casa em que entrarem...”(Lucas 10, 1 e 4).
Jesus visitou o povo, e Ele ia de lugar em lugar, entrava nas casas (de Simão Pedro, de Marta e Maria, de Simão o fariseu, de Zaqueu...
Depois de sua Ressurreição Jesus enviou os seus discípulos para a missão, e eles também começaram a andar de lugar em lugar anunciando a Boa Nova. Eles fizeram das suas casas o lugar da reunião, do encontro, assim no livro dos Atos dos Apóstolos podemos constatar que a casa é também a comunidade: “partiam o pão pelas casas, tomando o alimento com alegria e simplicidade de coração”(Atos 2, 4).
Mas o que se passa nestas visitas de Jesus, dos discípulos, às casas encontradas pelo caminho? Quem vem visitar é de paz: “Ao entrarem na casa saúdem-a (Shalom-Paz!) e se for digna desça a sua paz sobre ele”(Mateus 10, 11). O missionário é pessoa que traz a paz, porque ele traz uma Boa Nova (Evangelho).
É Boa Nova da VIDA, da ressurreição, como na casa de Simão Pedro com a sogra dele que se encontrava acamada com alta febre (Marcos 1, 29 a 31). Jesus toma pela mão, nada de distante, de discriminação porque é uma mulher e ainda doente. Ele a levanta (faz ressurgir), sua visita é para ela momento de retorno à vida, um reerguimento. Ela então os servia, isso é, ela entra na comunidade, ela assume o seu lugar, seu serviço (ministério), sua missão junto com os outros. É sempre agir de maneira positiva e não condenar, é sempre para mostrar que nada está perdido porque o nosso Deus é o Deus da vida.
É Boa Nova da SALVAÇÃO: “hoje a salvação entrou nessa casa” (Lucas 19, 9). É o que aconteceu com Zaqueu, o cobrador de impostos. Ele estava desejando ver Jesus, Jesus foi além do seu desejo, pois quis se hospedar na casa dele. Essa visita transformou a vida de Zaqueu.
Mas nem sempre a visita é bem quista, nem sempre o missionário é bem acolhido, pode até ser rejeitado: “E se algum lugar não lhes receber nem lhes quiser ouvir, ao partirem de lá, sacudam o pó debaixo dos seus pés em testemunho contra eles” (Marcos 6, 11). Pois acontece que pessoas não sabem reconhecer o dia em que são visitadas, como Jerusalém: “Não reconheceste o tempo em que foste visitada” (Lucas 9, 44).
Como Jesus agiu, assim agiram os discípulos. Visitaram as cidades e povoados do seu tempo, anunciando sempre uma Boa Nova (Evangelho) nunca umas palavras de condenação, pois não é para isso que somos enviados: “Deus amou tanto o mundo que enviou o se Filho ao mundo, para que por Ele o mundo seja salvo” (João 3, 16).
Missão é sair dos muros da igreja, é ir ao encontro dos outros: deus veio ao nosso encontro, Jesus foi ao encontro de tanta gente, os discípulos e as discípulas deixaram os seus lugares para percorrer o mundo conhecido daquela época (no livro dos Atos dos Apóstolos, Lucas nos conta até quatro viagens missionárias de Paulo junto com os seus colaboradores).
Não esqueçamos que quem dirige a missão é o Espírito Santo. Temos que deixar espaço para Ele em nossas vidas e em nossos planejamentos. Temos, sobretudo que estar bem atentos ao que ele diz ainda hoje à nossa Igreja (Apocalipse 2, 7). Ele nos dará de ter as atitudes de paz e de amizade que fazem entrar na relação certa com as outras pessoas, Ele nos dará de falar o necessário em cada circunstância e situação que encontraremos. Ele nos dará a coragem e a energia que nos fará enfrentar as dificuldades que com certeza encontraremos pelo caminho da missão.
“Deixem-se conduzir pelo Espírito Santo” (Gálatas 5, 16).
terça-feira, 15 de junho de 2010
25ª Semana do Migrante
Por uma economia a serviço da vida
O que é ser migrante? Migrar é ir de um ligar para outro. Têm aves migrantes. Estas aves vão de uma região para outra, de um pais para outro em busca de um melhor clima. Têm também pessoas migrantes.
Há pessoas que se mudam de lugar porque querem. Mas muitas mudam de lugar porque são obrigadas.
Mudar de lugar por questão de emprego: em busca de emprego ou porque a firma pela qual trabalha exige que vá trabalhar numa outra fábrica da companhia. Têm ainda os trabalhadores dos portos e aeroportos, ferrovias e estradas; os marítimos e pescadores... os trabalhadores da cana, nordestinos
Mudar de lugar por questão de saúde: o clima onde mora não convém
Mudar de lugar por questão política: refugiados por causa da guerra, exilados políticos, reforma agrária mal feita que expulsa o agricultor de sua terra
Mudar de lugar por causa de catástrofes: terremotos, enchentes, deslizamentos de terra, vulcões... a seca do nordeste.
A Palavra de Deus ilumina estas situações:
A Bíblia é a memória de um povo em êxodo.
Abraão foi um migrante, “um arameu errante (Deuteronômio 26, ) Andou de Ur da Caldéia para Haram, de lá para Canaã e depois desceu ao Egito de onde voltou para Canaã.
A fuga da escravidão, na terra do Egito e a longa caminhada pelo deserto em busca da terra prometida.
O Exílio na Babilônia e a volta depois de 50 anos.
Jesus pelas estradas da Palestina, anunciando a Boa Nova.
Paulo e as suas viagens missionárias
A 1ª carta de São Pedro lembra aos cristãos que eles são estrangeiros e forasteiros aqui na terra, sua Pátria verdadeira são os Céus.
A Palavra de Deus conta a história de um povo em marcha, na terra provisória, em direção à Pátria definitiva.
Temos também alguns documentos que recomendam particular atenção aos migrantes.
“O gênero humano encontra-se hoje em uma fase nova de sua história, na qual mudanças profundas e rápidas estendem-se progressivamente ao universo inteiro” (G. et S. 04). “As migrações hodiernas constituem o maior movimento de pessoas de todos os tempos. Tal fenômeno, que envolve cerca de 200 milhões de seres humanos, transformou-se em realidade estrutural da sociedade contemporânea”
“Um dos fenômenos mais importantes em nossos países é a mobilidade humana, em sua dupla expressão de migração e de itinerância, em que milhões de pessoas migram ou se vêem forçadas a migrar dentro e fora dos seus respectivos países” (Documento de Apare4cida 73).
terça-feira, 11 de maio de 2010
Os dois sacramentos da presença de Cristo
Retirar-se é um momento de encontro consigo mesmo e com Deus. Como o Profeta Elias que precisava se encontrar consigo mesmo porque não tinha mais coragem de continuar a sua missão, mas queria também encontrar-se com Deus, pois precisava encontrar o Deus pelo qual havia dado a sua vida. Por isso voltou às fontes de sua fé e do seu compromisso como membro do Povo de Deus. (1o Reis 19, 1-18).
Ele pensava conhecer a Deus, mas descobriu que Deus não estava no barulho e sim na brisa leve. Estamos aqui para escutar, descobrir novos rostos de Deus. Não sabemos tudo, pois Deus é insondável, nunca acabaremos de conhecê-lo.
Ao descobrir a presença de Deus numa brisa leve, Elias acabou descobrindo que Deus está na fragilidade, sua força manifesta-se na fraqueza e, sobretudo, nos fracos, nos pequenos, nos abandonados de sociedade.
Assim nós, viemos até aqui para nos encontrarmos com Deus e nos renovar na nossa fé no Deus Único, e no nosso compromisso como batizado e como vicentino.
O encontro se dá na oração e no silêncio, na contemplação tanto do rosto de Deus como de nossa vida: fé e vida, oração e ação, pois depois, trata-se de voltar para continuar a missão como Elias foi mandado de volta para junto do Povo.
Vamos contemplar os dois sacramentos da presença do Cristo vivo.
Para nós cristãos, Deus se revelou plenamente em Jesus de Nazaré: “Ninguém jamais viu a Deus; quem nos revelou Deus foi o Filho único, que está junto no seio do Pai”(João 1, 18) “Quem me viu, viu o Pai”. (João 14, 9).
Por isso vamos lembrar e contemplar a pessoa de Jesus, como os Evangelistas nos deixaram o seu rosto e suas atitudes.
Vicente também caminhou na sua vida para encontrar o Deus vivo e verdadeiro. Ordenado sacerdote ele busca benefícios bons, cuida dos seus interesses. Em Paris, ele descobre a diferença entre a realidade e as aparências, foi introduzido no mundo da marginalidade, o mundo dos que sabem recorrer a Deus. Mas continua procurando um serviço bem remunerado. A sua experiência como pároco de uma paróquia pobre da periferia de Paris, o leva a descobrir o sentido do sacerdócio, centrado no dinamismo da encarnação de Cristo, enviado pelo Pai para salvar os homens, quer dizer não de um Cristo separado dos homens e perdido na contemplação do Pai, mas vivendo para esses homens na solidariedade e fraternidade com eles.
Com Vicente, com Elias, vamos nesse retiro ao encontro do Deus vivo e verdadeiro para renovar as nossas energias espirituais, para fortalecer nosso compromisso com os mais necessitados, que queremos servir como Vicente e Frederico Ozanam.
“E a Palavra se fez carne e habitou entre nós” (João 1, 14).
Ele veio morar junto de nós. Nosso Deus é um deus que desce. Descer ao encontro de Deus. Ele não reteve ociosamente sua condição divina, mas se esvaziou e se fez um de nós, servo entre os servos (Filipenses 2, 5-11).
Essa encarnação de Deus, em Jesus de Nazaré, se deu entre os pobres, na periferia de Jerusalém, em Belém da Judéia. Dos 33 anos de vida de Jesus, Ele passou 30 em Nazaré da Galiléia, “o que pode sair de bom de Nazaré?” (João 1, 46). A Galiléia é a Província dos Pagãos, região descriminada pelas autoridades judias. A Galiléia, periferia geográfica da Palestina dessa época. Bom é a capital, Jerusalém: “Tu deves sair daqui e ir para a Judéia, para que também teus discípulos possam ver as obras que fazes. Quem quer ter fama não faz nada às escondidas. Se fazes essas obras, mostra-te ao mundo” (João 7, 3-4).
Como no antigo Testamento, Deus se revela em Jesus de Nazaré como uma brisa leve. Nada de glorioso, nada de espetacular (foi uma das tentações).
Foi a opção de Jesus, permanecer sempre junto aos mais empobrecidos, os excluídos do seu tempo, ao ponto de escandalizar as pessoas de boa reputação: “eles freqüenta os pecadores, senta-se à mesa com as pessoas em situação irregular, ele é um beberão e um comilão...”(Mateus 9,11; 11, 19).
Foi também nos empobrecidos do seu tempo que São Vicente encontrou Deus. Ele estava inquieto, buscava a Deus, até o dia que o encontrou na pessoa dos pobres. Ele se dedica à evangelização dos pobres do campo, abandonados pela Igreja. Ele descobre que a Igreja de Jesus é a Igreja dos pobres. A missão da Igreja tem um ponto de referência chave: a evangelização dos pobres. Por isso o discípulo de Jesus é uma pessoa desprendida de tudo, a serviço dos mais necessitados.
Vicente procurou a Deus e encontrou os pobres. Porque é junto dos pobres que se encontrou Deus.
Vicente de Paulo prefere conhecer a Deus pela forma na qual Ele próprio se manifestou ao longo da história. Por isso recorre à história e à sua própria história, para saber como é que Deus lhe manifesta o que ele é e o que faz. E de maneira particular recorre aos pobres para descobrir o que é que Deus e seu Filho, Jesus de Nazaré, disseram a respeito dos pobres, como optaram por eles e, conseqüentemente, como a Igreja de Jesus Cristo tem de ser a Igreja dos pobres. Nesses acontecimentos encontrou certamente os pobres, descobriu-os, e neles descobriu e encontrou igualmente Deus. Mas sobretudo depois desses acontecimentos estamos diante de um livre. Livre para Deus e para os pobres. Agora ele só tem diante se si um caminho: os pobres. E haverá de segui-lo. Ao fundar a Congregação da Missão, Vicente declara: “Quero uma Companhia que tenha por herança os pobres e que se dê inteiramente aos pobres”.
O fato de Jesus estar sempre junto aos mais abandonados e rejeitados da sociedade, já é, em si, uma Boa Nova (evangelho).Foi para eles que Ele foi enviado em primeiro lugar (Lucas 4, 16-21). Não esqueçamos que esse versículo do livro de Lucas foi escolhido por São Vicente como lema de sua Congregação da Missão.
Mas Jesus não se satisfaz somente com a presença silenciosa, Ele age em favor dos empobrecidos. Sabemos quanto os Evangelistas guardaram as ações de Jesus que mostram o seu amor e seu carinho para com os mais desfavorecidos.
Jesus acolhe os doentes: cegos, leprosos, coxos, possessos, até os mortos a quem Ele devolve a vida. São os sinais que comprovam que o Reino de Deus já chegou, chegou o tempo do Messias (Mateus 11, 2-6).
Jesus reintegra os marginalizados do sistema social, na comunidade social e religiosa: é o caso do leproso (Marcos 1, 40-45). Ele dá valor os que são considerados como pecadores públicos (coletores de impostos, prostitutas, estrangeiros...).
Jesus acolhe as mulheres que eram desprezadas e lhes devolve o seu direito de filha de Abraão. Ele até afirma e assim faz que elas são discípulas como os homens!
Jesus acolhe também as crianças que até a idade dos doze anos eram considerados sem importância. Não somente as recebe mas afirma que quem não se torna como uma delas não poderá entrar no Reino de Deus.
Vamos contemplar de mais perto dois textos que nos mostram a importância do empobrecido: Marcos 3, 1-6 e Lucas 13, 10-17.
O verdadeiro culto que agrada a Deus é quando celebramos a vida na defesa e no reergueminto dos mais pobres. Nos dois textos estamos na sinagoga (lugar de culto), num dia de sábado (dia do Senhor). Lá se cultuava a Deus pela leitura das Escrituras e pelo canto dos Salmos. Para Jesus esse culto não tem sentido, enquanto tem necessitados à porta esperando por vida e vida em abundância. O verdadeiro culto a Deus é a vida, como afirmava Santo Ireneu: “A glória de Deus é o homem vivo”.
O primeiro sacramento de Cristo Jesus no meio de nós é o pobre. Assim nos lembra também o evangelista Mateus no texto tão bem conhecido do Juízo Final: “Quando te encontramos Senhor, quando você ajudou um faminto, um sedento, um maltrapilho, um preso, um migrante, quando ajudaram um desses pequeninos meus irmãos: ERA EU”. (Mateus 25, 37-40). Vamos reparar com muita atenção como as palavras que marcam a presença de Jesus são as mesmas que, mais adiante, vamos encontrar na última Ceia. Os empobrecidos são o corpo do Senhor, como o pão e o vinho da Eucaristia. Tocar neles, é tocar nEle.
A grande Assembléia de Puebla nos lembrou os rostos desfigurados dos pobres desse nosso Continente: rosto dos indígenas (Campanha da Fraternidade desse ano), dos lavradores, dos operários, dos idosos (Campanha da Fraternidade do próximo ano), dos jovens entregues às drogas, das crianças abandonadas.
Vicente sempre repetia: “Tudo o nosso querer fazer consiste na ação. O verdadeiro sinal do amor de Deus é a ação boa e perfeita”.
Estamos muito acostumados a reconhecer e adorar de modo todo especial a Jesus sacramentado. A Eucaristia ocupa um lugar central na vida dos cristãos. Há, até, uma certa inflação de culto eucarístico. Será que o desejo do Senhor, ao nos deixar esse sinal, esse sacramento de sua presença foi bem este?
Os discípulos de Emaus reconhecem o Ressuscitado ao partir do pão. Era, provavelmente, um gesto costumeiro de Jesus, Ele tinha uma maneira especial de dar graças e romper o pão entre os seus discípulos. Mas, então poderíamos nos perguntar em que a maneira de fazer do Mestre tinha algo de especial.
Vamos recorrer ao Evangelista Marcos, no capítulo 6, versículos 34 a 44.
A compaixão de Jesus: são ovelhas sem Pastor, Jesus vai assumir a função
do Pastor (Salmo 23: mesa, relva, conduz...).
Vai mandar recolher o que se tem: ele não dá de mão beijada, tem que
participar com alguma coisa.
Ele organiza o povo: sentados por grupos de cem e cinqüenta...
“Tomando os cinco pães e os dois peixes, elevou Ele os olhos aos céus,
abençoou, partiu os pães e deu-os aos discípulos para que distribuíssem”.
Notamos como são as mesmas palavras da última Ceia, com a instituição
da Eucaristia. Antes de celebrar a Eucaristia, temos que aprender a
repartir o pão.
Essa é a grande lição dos pães: “ Não tinham entendido nada a respeito
Dos pães, seu coração estava endurecido”. (Marcos 6, 52).
O Evangelista João não relata a Instituição da Eucaristia na Última Ceia do Senhor, mas guardou um outro gesto, que tem a mesma importância que é o “Lava-pés”. Como a partilha do pão, o lava-pés lembra a prática de Jesus em favor dos empobrecidos: “Eu não vim para ser servido e sim para servir”(Marcos10, 45). O interessante é que no livro de João não encontramos as “Bem Aventuranças”, mas temos no fim da narração do “Lava-pés”uma Bem Aventurança: “Eu lhes dei um exemplo; vocês devem fazer a mesma coisa que eu fiz . Se vocês compreendem isso, serão felizes se o puserem em prática”(João 13, 15-17).
Celebrar a Eucaristia é celebrar a memória do mistério da Paixão, Morte e Ressurreição do Senhor Jesus. É celebrar o dom da vida, como serviço para que todos tenham vida e vida em abundância.
A Eucaristia é um sacramento, isto é, um sinal: sinal da vida doada a serviço do bem maior de todos sem distinção, sem discriminação. Mas se é um sinal, para ser carregado de significado, deve corresponder à realidade. Não podemos aceitar um corte entre a vida e a celebração litúrgica, entre a fé e a vida.
O dia em que Vicente de Paulo quebra a laje que o sepulta em si mesmo e se entrega a Deus presente nos pobres, Deus o inunda com uma luz nova. No dia em que Vicente de Paulo se compromete com Deus para servi-lo na pessoa dos pobres, encontra o deus vivo e verdadeiro; descobre o evangelho daquele que, ungido pelo Espírito, foi enviado aos pobres para proclamar o ano da graça do Senhor.
A decisão de dar-se a Deus durante toda a sua vida no serviço aos pobres, fá-lo sair da pequena periferia em que se move, são “os assuntos de Deus” para os quais dedica a sua vida.
Vivemos esse pequeno encontro com deus, o Deus de Nosso Senhor Jesus Cristo. Foi muito bom, como na montanha da Transfiguração com Pedro, Tiago e João, ou no Monte Sinai com Moisés e Elias. Mas é preciso descer da montanha, é preciso agora ir ao encontro desse Deus vivo e verdadeiro, presente na pessoa de nossos irmãos e irmãs mais desfavorecidos e abandonados, na presença sacramentada do seu Corpo e Sangue doados para a Salvação de todos, isto é para que todos tenham vida e vida em abundância.
É a grande lição de espiritualidade que recebemos de Vicente de Paulo: “Podeis crer me, é uma máxima infalível de Jesus Cristo, que de sua parte vos tenho anunciado com freqüência, que, uma vez que um coração está esvaziado de si mesmo, Deus o enche. Deus o habita e age nele. E não seremos então nós que agi, e sim Deus em nós, e tudo haverá de correr bem.
O segredo que São Vicente nos confia no fim desse pequeno retiro, é o mesmo que confiava aos seus irmãos: “A melhor maneira de garantir a nossa felicidade eterna é viver e morrer no serviço aos pobres, nos braços da Providência e numa renúncia a nós mesmos para seguir Jesus Cristo”. Eis aqui as cinco palavras chaves da experiência de fé de Vicente de Paulo: serviço, pobres, Providência, seguimento, Cristo.
Para tal, temos que fazer como São Paulo fez também e lembra aos cristãos da cidade de Filipos: “O que para mim era vantagem, por causa de Cristo considerei perda. Mais ainda, considero tudo perda em comparação com o superior conhecimento de Cristo Jesus; por Ele dou tudo como perdido e o considero lixo, contanto que eu ganhe Cristo, e esteja unido a ele”(Filipenses 3, 7-8).
Vamos evangelizar, isto é anunciar a Boa Nova da vida para todos e vida plena (a pessoa toda e toas as pessoas), mais sem nunca esquecer dos empobrecidos: “Então Cefas (Pedro),Tiago e João apertaram a mão a mim e a Barnabé em sinal de solidariedade ( de comunhão), para que nós nos ocupássemos dos pagãos e eles dos judeus. Somente pediram que nos lembrássemos dos pobres, questão que me esforcei por cumprir”(Gálatas 2, 9-10). A comunhão na obra do Evangelho é a preocupação pelos empobrecidos, é isso que une todos os que trabalham na evangelização, qualquer que seja a maneira, o lugar e as pessoas para as quais se dirige. Enquanto tiver um pobre na terra, quem fez a experiência do verdadeiro Deus, nunca poderá sossegar.
